MODULO GESTÃO PEDAGÓGICA
Indicadores pedagógicos de qualidade
Aula 6
Profª Cleire Maria do Amaral Rodrigues
Durante muito tempo se acreditou a partir de pesquisas principalmente americanas que as escolas não eram capazes de modificar a realidade acadêmica de seus alunos, já que esta realidade era, em grande parte, determinada pelos elementos extra-escolares, isto é, pela realidade sócio-econômica dos alunos. O resultado desse modo de pensar foi o surgimento de um forte determinismo sociológico aliado a um pessimismo pedagógico ou seja não se tinha esperança que um tipo de escola mais eficaz pudesse ter algum efeito na vida de uma comunidade. O que se pensava é que não havia saída para os alunos sócio e economicamente desfavorecidos, sendo que a escola funcionava apenas como um espaço de reprodução das desigualdades sociais.
Hoje acredita-se que a escola juntamente com professor, família e aluno são os grandes grupos de fatores associados ao desempenho escolar.
É claro, tem uma discordância sobre o peso relativo de cada um desses fatores, mas é inegável que a escola ocupa hoje uma posição de destaque.
Essa mudança na maneira de pensar aconteceu à medida que foram surgindo estudos voltados para compreender os processos internos da escola e as pesquisas qualitativas começaram a abrir a “caixa-preta” das escolas. Baseados nesses estudos passou–se a combater essa idéia de que os estudantes pobres não podem ter sucesso na escola e que elas não fazem a diferença. Então essa nova abordagem procurava mostrar que as escolas podem sim, exercer um efeito positivo sobre o aprendizado dos alunos.
A partir de então, a busca por uma compreensão do que acontece dentro da escola que determina a sua eficácia, ou seja, a sua capacidade de interferir positivamente, através de políticas e práticas escolares, no desempenho dos alunos, passou a ser muito maior e fazer parte do tema de pesquisas em educação.
A ESCOLA E O DESEMPENHO ESCOLAR.
Pode –se analisar a escola por meio de vários fatores, reconhecidos como fatores que podem interferir no desempenho dos alunos. São formas de se analisar a escola quanto a sua eficácia. Seis fatores considerados elementos que se destacam como determinantes da qualidade de uma escola:
- A infra-estrutura e os fatores externos à organização da escola,
- A gestão da escola,
- Os professores,
- A relação com as famílias,
- O clima interno e
- As características do ensino.
Cada um desses itens de análise, ao serem tratados a partir da perspectiva do “fator escola”, busca explicitar as várias formas com que a escola interfere no desempenho escolar.
Embora existam estes e outros fatores a serem analisados na compreensão do que determina a eficácia da escola, vamos aqui nos deter aos fatores relacionados diretamente aos aspectos pedagógicos :
Trabalho do gestor no aspecto pedagógico.
A liderança do diretor significa sua capacidade de comandar a construção e a execução do projeto político-pedagógico. Além de gerenciar a implantação e implementação do PPP o gestor deve organizar o funcionamento da escola e interagir com os vários sujeitos que nela se encontram, construindo a legitimidade de suas ações.
Uma liderança eficiente, tanto em suas funções administrativas quanto em suas funções pedagógicas, deve buscar um relacionamento próximo e tranqüilo com a equipe de trabalho, sendo capaz de mobilizar os supervisores e os professores para o cumprimento dos objetivos educacionais estabelecidos na escola. E deve também buscar interagir com os alunos no sentido de deixá-los interessados em sua própria aprendizagem.
As questões pedagógicas são consideradas por vários autores como decisivas para a verificação da capacidade de liderança. A habilidade do diretor para estruturar projetos pedagógicos e metas de ensino, a sua capacidade para incluir os professores nas tomadas de decisões e de envolvê-los com os projetos da escola são todos elementos importantes para que existam na escola, objetivos claros compartilhados pela equipe e para que, dessa maneira, a direção seja considerada eficaz.
Acredita-se que a competência da escola em possuir metas claras e compartilhadas por toda a equipe pode se traduzir justamente pela existência de uma “inteligência estratégica” , ou seja, por uma real liderança administrativa e pedagógica.
Outro elemento importante é quando o gestor demonstra a preocupação de integrar os professores nas tomadas de decisões e no desenvolvimento do programa de ensino da escola, fazendo com que os professores se tornem “agentes de mudança” .
Quando o gestor não é capaz de fazer essa integração o que se percebe é que cada professor possui uma idéia do que ensinar e o faz isso de forma individual. Há professores, inclusive, que desconhecem os projetos em andamento na escola. Mas ao contrario , quando há essa integração são realizadas reuniões semanais com toda a equipe para avaliar o trabalho que está sendo feito e discutir saídas . E através de práticas como esta se percebe a existência de apoio pedagógico aos professores.
A vantagem de o gestor organizar e coordenar estas reuniões pedagógicas com sua equipe docente é a criação de um espaço para que a equipe constate e discuta os problemas, dê sugestões e é daí que surgem os projetos a serem implementados na escola.
O contato mais direto dos professores com a liderança pedagógica facilita no sentido de que as mudanças e os problemas sejam discutidos de forma mais direta, mais aberta, sem acontecer por exemplo, de alguém ficar colocando a culpa nos outros.
Mas é preciso que essa liderança não deva ser confundida com a idéia do diretor em uma posição de mando dentro da escola, e deve representar a capacidade deste de coordenar e incentivar a participação dos vários sujeitos escolares. Neste ponto, ganha destaque a questão do projeto pedagógico. Assim, ao mesmo tempo em que cabe à direção liderar o seu processo de construção, cabe a ela também propiciar o envolvimento dos professores com o projeto.
Não basta apenas construir um bom projeto pedagógico, é necessário, para a sua perfeita implantação, também conquistar o envolvimento dos professores.
Se o papel do líder pedagógico é principalmente, levar o professor a desenvolver-se profissionalmente. O diretor precisa estar bem informado e motivado a socializar seu conhecimento. Evidentemente, isso implica em estar atualizado em relação aos novos programas e metodologias de ensino existentes, o que só poderá ser feito em cursos ou treinamentos de curta, média ou longa duração. Normalmente os diretores são unânimes em reconhecer que eles próprios também necessitam de respaldo teórico e técnico. E até reclamam que se enfatiza muito a reciclagem de professores, e cobra-se a atuação dos diretores nesse sentido, mas não há suporte institucional para tanto. Por outro lado acontece muito também de alguns diretores nunca participarem de cursos ou grupos de estudos realizados na escola por acharem que só interessam ao professor e permanecem alheios a questões pedagógicas importantes além de ser um péssimo exemplo.
O papel dos professores
Um dos primeiros aspectos a considerar está relacionado a sua formação, que é a oportunidade oferecida aos professores ou criada por eles para a realização de cursos de capacitação, treinamento e atualização. O investimento na capacitação dos professores é determinante para uma melhora no desempenho do aluno, na medida em que a atualização do professor determina a aprendizagem do aluno.
Destaca-se o fato de que altos índices em avaliações escolares são normalmente obtidos por alunos que contaram com uma equipe de professores com formação em nível superior. Considera-se que a formação adequada dos professores é um problema para educação em nosso país, mas pode-se dizer que o ideal é que o professor tenha ao menos o terceiro grau ou uma pós-graduação voltados para a área em que ensina.
Além dessa formação inicial é necessário que a escola pense na formação continuada porque ela amplia a percepção e a compreensão que as pessoas têm em relação ao trabalho que fazem. Não é possível continuar fazendo as mesmas coisas e esperar que os resultados sejam diferentes daqueles que se tem obtido. Novas realidades exigem novas aprendizagens. Nenhuma instituição dá conta de seu propósito sem um processo sistemático de formação.
Um outro elemento a ser considerado para a compreensão do papel dos professores no “fator escola” diz respeito à questão da integração no ambiente de trabalho. Sinais de confiança e colaboração entre os membros da equipe são importantes para se constatar que há uma meta dentro da escola.
Um ambiente produtivo de trabalho não deve ser caracterizado apenas através da figura do diretor da escola, mas também através dos professores. A compreensão de como são as suas relações interpessoais dentro da escola, ou seja, de como funciona a questão da confiança e do companheirismo na equipe, é importante para a verificação da influência da escola no desempenho dos seus alunos.
Os alunos quando percebem que há unidade no grupo de educadores, se sentem mais seguros, mais confiantes e mais dispostos a seguir orientações, a gastar energia com as tarefas escolares.
Os professores são a principal fonte para se perceber a existência de uma cultura de cooperação na escola. Da mesma maneira, torna-se importante perceber a satisfação dos professores com o trabalho e, no caso brasileiro em particular, com o salário na medida em que podem determinar diretamente a sua postura e o seu engajamento nas atividades e na sua disponibilidade para a cooperação no ambiente escolar.
Então, os aspectos referentes aos professores que determinam a eficácia da escola:
- Formação adequada e experiência profissional;
- Satisfação com o trabalho e salário;
- Tempo de serviço na escola e estabilidade da equipe;
- Qualidade das relações interpessoais entre os professores;
- E o apoio ao professor.
O clima interno da escola
Um ambiente de trabalho organizado é de grande importância para um aumento do rendimento do trabalho e da motivação de toda a equipe e, conseqüentemente, para um aumento do desempenho escolar. Essa organização deve estar presente tanto dentro da sala de aula, como nas dependências da escola.
Esse elemento ganha uma importância fundamental quando se depara com o problema da disciplina, presente de maneira recorrente no nosso sistema escolar, em especial no sistema público.
A falta de pessoal dentro das escolas, as carências sociais e econômicas dos alunos e de seus pais, as políticas públicas de ensino, entre outros, são todos elementos que vêm contribuindo diretamente para as dificuldades disciplinares das escolas públicas brasileiras.
Essa questão aponta para a necessidade de uma escola ao mesmo tempo relaxada, firme e organizada, para que os professores possam oferecer um clima organizado e tranqüilo dentro da sala de aula.
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Dessa forma, construir um clima de ordem dentro da escola é uma tarefa colocada às escolas públicas estaduais, em especial, e que, se conquistada, pode interferir positivamente e de forma direta nos desempenhos acadêmicos dos alunos.
Outro elemento que pode ser analisado como constituinte das características do clima interno das escolas é a expectativa em relação ao desempenho futuro dos alunos.
Vários autores destacam a importância das expectativas dos professores em relação à aprendizagem dos alunos para a eficácia das escolas.
As pesquisas têm constatado que em todas as escolas de sucesso estudadas esse elemento está presente de forma marcante, o que parece significar que as altas expectativas dos professores eficazmente se traduzem em ações educativas que assegurem o cumprimento destas.
A literatura especializada mostra que a expectativa dos professores em relação ao desempenho dos alunos pode gerar um clima tanto na sala de aula, quanto na própria escola, o que é propício ao incremento do ensino e da aprendizagem. Quando os professores possuem grandes expectativas, cria-se“um ciclo virtuoso”, em que o resultado é o efeito altamente positivo para o desempenho escolar .
Além do próprio esforço que o professor lhe atribui. A dedicação do professor ao seu trabalho é influenciada pelas respostas às suas expectativas que ele vai tendo ao longo
Do processo de ensino. Isto significa que se o professor vai tendo ao longo de sua carreira, comprovações do sucesso de seus alunos e ex-alunos isto vai alimentando sua capacidade de se dedicar ao trabalho.
Então , pode-se dizer que no que se refere às características do clima interno da escola, são dois os itens de análise a serem trabalhados:
Existência de um clima de ordem
E expectativa em relação ao desempenho futuro dos alunos.
As características do ensino
U m primeiro item que pode ser incluído diz respeito à referencia entre os professores sobre o que ensinar. A existência de metas acadêmicas discutidas e escritas pela própria equipe é uma característica presente nas escolas de sucesso.
A participação dos professores no planejamento do currículo, é uma prática que determina positivamente o desempenho dos alunos. Nesse sentido, há de se considerar que a capacidade do cumprimento do programa de ensino estabelecido também está diretamente relacionada com a eficácia da escola.
Os estudos mostram que alunos com altos índices de realização acadêmica normalmente advêm de escolas que possuem uma agenda escolar e uma preocupação com o cumprimento do programa de ensino.
Dentro desse item de análise, cabe ainda considerar que a existência de uma referência sobre o que ensinar está também relacionado com a capacidade do professor em organizar suas aulas com antecedência, permitindo assim o cumprimento do programa escolar. A correta preparação das aulas garantirá não só que os métodos e estratégias mais efetivos sejam aplicados mas também que o tempo seja adequado e suficiente para desenvolver o que se pretende.
Também mostram que a estruturação da matéria a ser ensinada, assim como, a explicitação aos alunos daquilo que vai ser lecionado, contribui positivamente para uma maximização da aprendizagem.
Aqui há dois ângulos a serem considerados : o professor deve primeiramente educar e treinar a si mesmo ,lembrando-se antes de iniciar a aula , dos objetivos dela , as estratégias que traçou, o tipo de aula que dará e quais os procedimentos operacionais que terá de executar pra ser bem sucedido.
Em segundo lugar o professor deve explicar aos alunos de forma convincente , os objetivos da aula , estabelecer metas para o aluno e a efetiva conscientização de seu papel ,mostrando-lhe que aprender é algo que só ele pode fazer.
Outro elemento que merece destaque na literatura especializada diz respeito à existência de uma estrutura de avaliação e de monitoramento do desempenho dos alunos.
É absolutamente necessária a existência de uma estrutura que verifique o rendimento para que a escola possa estabelecer as suas estratégias pedagógicas, servindo também de fonte de dados para as decisões administrativas.Essa estrutura de monitoramento é importante inclusive para o item anteriormente tratado, a existência de uma referência sobre o que ensinar.
Somente através do monitoramento de desempenho é possível elaborar um planejamento de curso verdadeiramente eficaz, ou seja, estruturado a partir das reais necessidades dos alunos.
Através da estrutura de avaliação torna-se possível fazer levantamentos dos problemas e, assim, elaborar e implementar políticas escolares que busquem a solução dos problemas constatados ou aprimorem as qualidades.
A ênfase dos programas de ensino é também um item de análise a ser aqui considerado. Há uma certa flexibilidade na elaboração dos programas de ensino, na medida em que as escolas podem optar por elaborar o seu próprio ou utilizar o programa fornecido pelas secretarias de educação. Dessa maneira, várias são as ênfases pedagógicas possíveis – ênfase nos aspectos cognitivos, na questão da cidadania, na questão vocacional ou no aspecto psicossocial.
Apontam, no entanto, para o fato de que os programas que apresentam melhores resultados em relação ao desempenho escolar são os que possuem uma ênfase nos aspectos cognitivos, ou seja, enfatizam processos que desenvolvem as habilidades cognitivas.
Pode-se dizer também que, essa ênfase pode ser percebida através de atividades que desenvolvem o raciocínio lógico e a capacidade crítica dos alunos, priorizando a criatividade, a auto-expressão, a participação, a aprendizagem de conceitos e o reconhecimento de ambigüidades.
Nessa questão, outro elemento a ser considerado é que os aspectos cognitivos, na verdade, são instrumentos básicos para que se possa trabalhar com as outras questões.
Como você sabe não existem cidadãos ou profissionais que não saibam ler, escrever e fazer contas.
Se o projeto pedagógico de uma escola possui a preocupação com outros aspectos, no entanto, não há como deixar de lado a questão cognitiva que pode, nesse sentido, ser compreendida como um instrumental civilizatório a ser dado aos alunos.
Ainda em relação às características de ensino, deve-se procurar verificar o processo de ensino utilizado.
Hoje as escolas públicas brasileiras, convivem com duas opções de processos de ensino: a estruturação através de séries ou através de ciclos.
Distingue-se o fato de que o processo de ensino utilizado, ou seja, a estruturação das grades curriculares através de séries ou de ciclos é um fator organizacional que interfere diretamente na eficácia das escolas. No entanto, por ser um dado atualmente mais marcante da realidade brasileira e por ser ainda recente, pouco se tem ainda de concreto sobre qual das duas formas de processo de ensino pode ser mais produtiva.
Dessa maneira, no bloco “características da escola” podemos evidenciar os seguintes itens
Existência de uma referência clara sobre o que ensinar
Ênfase nos aspectos cognitivos;
Existência de uma estrutura de monitoramento do desempenho dos alunos;
Política de reprovação e aceleração de alunos;
Processo de ensino utilizado.
Para finalizar, precisamos refletir que não há estratégias de mudanças que sejam infalíveis ou ainda que exista um conjunto de regras e etapas a seguir, mas precisamos lembrar o seguinte :
Os processos coletivos e as parcerias fortalecem a gestão escolar , definindo-a como democrática;
As mudanças se efetivam como resultantes de um processo de respeito , de investimento , de formação continuada dos profissionais e de uma política salarial compatível;
Mudanças nas crenças, nos valores e nas posturas ocorrem muito lentamente, no entanto basta uma pequena parcela da equipe para puxar o grupo todo no sentido das mudanças.
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